A vida e o mundo estão em constante e irrefreável transformação. As pessoas mudam, assim como se transformam os lugares, as cidades, os países, o planeta. A metamorfose é algo real e irreversível. Quem não se adapta às condições substanciais da evolução, cai na escuridão da retrogradação, da ignorância e da estupidez. Enquanto assistimos contentes ao desenvolvimento e crescimento intelectual de algumas pessoas, caminho natural de quem estuda, reflete, aprimora-se e se aperfeiçoa como ser humano, vimos desalentados o obscurantismo que ocupa mentes menos lúcidas, que involuem se enfiando em subterrâneos de ignorância e fanatismo político-religioso, utilizando-se continuamente do nome de Deus em indecente hipocrisia. Nos homens e mulheres, as mudanças têm prazo de validade, a irremissível hora da temida morte. Nas localidades, a metamorfose segue seu curso dia após dia, indo adiante e deixando os vetustos humanos para trás, enquanto novas vidas surgem no horizonte trazidas pelas incansáveis cegonhas (contém alguma ironia). É o ciclo mágico da evolução, com suas consequências positivas e negativas.
É salutar relembrar e louvar os tempos idos. Valorizar os instantes, locais e experiências do passado é bom, prazeroso e justo. Mas renegar o presente e os benefícios do progresso e da evolução humana é um verdadeiro atestado de estupidez.
O tempo não para e a mudança sempre vem, conforme atestaram Cazuza e Belchior, brilhantemente. Não há como lutar contra isso. E esta realidade está bem diante da nossa percepção. Quem reside em Espinosa pode perceber a inexorável transformação do cenário urbano. Na mesma rua que homenageia o Presidente Getúlio Vargas, figura polêmica da História da República Brasileira, dois símbolos de um panorama de outrora estão desaparecendo aos poucos. Símbolos de dois elementos fundamentais para a sobrevivência humana, luz e água, a velha construção que abrigou o Motorzão e a antiga caixa d´água estão sumindo diante dos nossos olhos.
Da primeira construção, resta apenas a fachada degradada pelo tempo. Ali em um espaço pequeno, funcionou por algum tempo uma engrenagem simples que transformava óleo diesel em energia para iluminar a então pequena cidade até o início dos anos 70. A iluminação das praças e ruas, bem anêmica, tinha hora para terminar: 22 horas, um pouco antes que a meia-noite chegasse. O encarregado principal a manter o sistema que mantinha a cidade alumiada por tempo determinado era o digno e saudoso eletricista Mirão, cidadão respeitável admirado por todos.
Ali pertinho, do outro lado da rua, outra antiga construção de enorme valor para a comunidade espinosense está desparecendo aos poucos da paisagem. A velha caixa d´água que por anos foi de fundamental importância para o abastecimento hídrico da nossa população, aos poucos vai sendo demolida. Restam apenas agora as quatro pilastras que sustentavam o reservatório da água que chegava até ali do Impossível através de uma rede de largos tubos. Quando adolescente, eu e meus amigos praticantes do futebol no então Estádio Vasco A. Neto, o Campão, localizado onde estão atualmente as instalações do Mercado Municipal, tomávamos banho na cascata que descia da estrutura quando a caixa se enchia e transbordava. Era uma festa!
A cidade cresceu, modernizou-se e quase tudo mudou. E para melhor! Hoje a população conta com sistemas modernos que entregam energia em tempo integral e água potável em quase toda a sede do município, em uma evolução irrefutável. A casa do famoso Motorzão e a caixa d´água vão sumir da nossa visão cotidiana muito em breve. Mas suas importâncias para a população jamais deverão ser esquecidas, mesmo que restem apenas imagens físicas e virtuais suas. Cumpriram seus papéis na nossa sociedade com toda importância e merecem nosso reconhecimento. Com o passar implacável do tempo, com o descansar em berço esplêndido das velhas gerações, certamente serão ignoradas. É a vida, finita, irreversível e muitas vezes injusta e cruel!
Um grande abraço espinosense.




