Espinosa, meu éden

Espinosa, meu éden

sábado, 16 de fevereiro de 2019

2141 - A amizade vence o maldito racismo

Havia um tempinho que eu não ia ao cinema. O motivo é bastante simples. Os cinemas, hoje disponíveis apenas nos shoppings, privilegiam os filmes de ação, de vampiros, de comédias, de criaturas sobrenaturais e aqueles destinados ao público infantil, pois atraem mais público e, consequentemente, geram maior lucro nas bilheterias. É o capitalismo. Por isso, quando a gente tem a oportunidade de ver na programação um belo filme, não pode deixar para amanhã, pois eles ficam geralmente uma única semana em cartaz. E foi assim que fui assistir ao "Green Book - O Guia" numa noite de quarta-feira, dia de ingresso menos caro aqui em Montes Claros.


O filme conta a história de um músico negro virtuoso ao piano que contrata, como motorista para sua turnê pelo Sul racista dos Estados Unidos, um branco descendente de italianos que, antes de ser demitido, era um misto de segurança e faz-tudo em uma discoteca de Nova York chamada Copacabana. De um relacionamento tempestuoso e conflitante entre patrão e empregado surge uma firme amizade fundamentada na admiração e no respeito. 
O pianista "Doc" Don Shirley (Mahershala Ali) e o seu motorista e defensor Frank Anthony Vallelonga, o Tony "Lip" (Viggo Mortensen), viajaram durante dois meses (tempo no filme; na realidade foram 1 ano e meio) com apresentações do artista por alguns estados sulistas dos EUA. O verdadeiro Don (Donald Walbridge Shirley) nasceu na Flórida, no dia 29 de janeiro de 1927, filho de pais imigrantes jamaicanos, o pai pastor e a mãe professora. Aos nove anos de idade, perdeu a mãe. Desde os dois anos ele já tocava piano e se dedicou mais tarde ao jazz, por puro preconceito dos produtores que não admitiam um negro tocando música clássica, que era o sonho dele.


O Tony nasceu e foi criado no Bronx, de família de ascendência italiana. Um tanto ignorante, racista e truculento, Tony aceitou meio a contragosto ser funcionário de um negro. A convivência com o artista o fez refletir sobre como era insustentável e inexplicável aquele estado de coisas que imperava no Sul dos Estados Unidos, com uma segregação racial estúpida e desumana, que impedia que negros usassem os mesmos hotéis, restaurantes, ônibus e banheiros dos brancos. Negros eram tratados como lixo, agredidos e humilhados. Até o grande artista Nat King Cole foi atacado no palco em uma apresentação no Alabama no ano de 1956. Motivado para mostrar sua arte aos brancos, Shirley corajosamente encarou o desafio de se apresentar nos estados racistas, porém se precavendo contra agressões ao contratar o segurança Tony Lip, o que não impediu que ele sofresse algumas duras consequências. 
Um fato curioso é que os dois personagens reais faleceram em datas aproximadas. Enquanto Tony morreu no dia 4 de janeiro de 2013, Don faleceu em 6 de abril do mesmo ano.


O nome do filme vem de um guia de viagem para negros distribuído nos postos de gasolina da época, o "The Negro Motorist Green Book", editado e publicado por Victor Hugo Green de 1936 a 1966, com listas de restaurantes, hotéis, bares e lugares turísticos do país onde eles pudessem estar em segurança, já que nos estados sulinos americanos vigoravam leis locais e estaduais (Jim Crow Laws) que institucionalizaram a segregação racial (entre 1876 e 1965). 
O filme é muito bom. Mesmo com algumas pitadas de humor, o que se apresenta ao espectador é o drama do protagonista, um cidadão negro, homossexual e pouco afeito às agruras por que passam seus irmãos de cor, mostrando-se às vezes rude, egocêntrico e vaidoso. O que pode e deve se extrair do filme é a consciência de quão absurdo é o racismo, esse sentimento maligno e nefasto de quem se julga superior a outro semelhante. A película apresenta, mesmo que de forma sutil, não tão escancarada, a podridão e falta de empatia das mentes humanas que, em nome de Deus, cometem as mais perniciosas atitudes contra outrem. Até o bronco Tony consegue perceber a irracionalidade do cenário americano e logo se redime, mudando seus conceitos.
O filme vem conseguindo boas reações de público e crítica. Além de ganhar o People's Choice Award no Festival Internacional de Cinema de Toronto, ele conquistou três troféus do Globo de Ouro 2019: os de Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Filme Cômico e Melhor Roteiro de Cinema. O longa também está indicado em cinco categorias no Oscar 2019, nas de Melhor Filme, Melhor Ator (Viggo Mortensen), Melhor Ator Coadjuvante (Mahershala Ali), Melhor Roteiro Original e Melhor Montagem. O ator Viggo Mortensen merece o troféu pela magnífica atuação.  
Um grande abraço espinosense.



Data de lançamento: 21 de novembro de 2018 (EUA)
Bilheteria: U$ 61,4 milhões
Direção: Peter Farrelly
Roteiro: Peter Farrelly, Nick Vallelonga, Brian Currie
Elenco:
Viggo Mortensen (Frank "Tony Lip" Vallelonga)
Mahershala Ali (Don Shirley)
Linda Cardellini (Dolores Vallelonga)
Dimitar Marinov (Oleg)
Mike Hatton (George)
Iqbal Theba (Amit)
Sebastian Maniscalco (Johnny Venere)
Von Lewis (Bobby Rydell)
P.J. Byrne (Record Executive Producer)
Montrel Miller (Birmingham Hotel Waiter)
Tom Virtue (Morgan Anderson)
Dennis W. Hall (Wise Guy Mags)
Randal Gonzalez (Gorman)
Maggie Nixon (Coat Check Girl)
Brian Distance (Macon Cop #2)