Vivemos tempos conturbados neste planeta tão colossal, esférico, lindo e azul. Mas sempre foi assim na História, em maior ou menor grau, com casos terríveis de tragédias causadas pelo maldito fanatismo. Os exemplos funestos são muitos. Talvez uma das maiores e terríveis tragédias humanas tenha sido o Holocausto, o assassinato em série de cerca de 6 milhões de judeus e outras minorias comandado pelo ditador Adolf Hitler entre 1939 e 1945, com apoio e omissão de milhões de cidadãos alemães. Dezenas, centenas ou milhares de outros eventos funestos ocorreram em menor proporção, eliminando vidas humanas por conta do fanatismo exacerbado de incautos, seja em adoração a políticos despóticos ou a líderes religiosos embusteiros. Entre as tragédias que envolveram pastores messiânicos, destaca-se a tragédia de Jonestown, comunidade religiosa fundada pelo pastor Jim Jones, que resultou na morte de 918 pessoas no dia 18 de novembro de 1978, entre assassinatos e suicídio coletivo. Para quem quiser descobrir mais casos do tipo, existem muitos documentários disponíveis na Netflix sobre líderes religiosos que engambelaram ingênuos fiéis para se enriquecerem ou para satisfazerem seus obscenos desejos de poder e sexo. Alguns deles; "Wild Wild Country", "Keep Sweet: Pray and Obey", "Confie em Mim - O Falso Profeta", "Escaping Twin Flames", "How to Become a Cult Leader", "Waco: American Apocalypse", "Dancing for the Devil: The 7M TikTok Cult", "Murder Among the Mormons" e "The Sons of Sam: A Descent into Darkness". Do Brasil, existe a história do "João de Deus - Cura e Crime" e o ótimo documentário, indicado ao Oscar, "Apocalipse nos Trópicos", da diretora Petra Costa, que escancara o fanatismo fomentado nas igrejas por pastores e políticos inescrupulosos com a intenção de ganhar o poder e, consequentemente, dinheiro, muito dinheiro.
E sobre isso, fanatismo, é que fiquei impressionado com a história da banda norueguesa Mayhem mostrada no filme "Mayhem: Senhores do Caos" ("Lords of Chaos"), disponível no Prime Video. Em 1h57, o diretor Jonas Åkerlund nos oferece seu roteiro, em parceria com Dennis Magnusson, sem subterfúgios ou superficialidades. A verdade dura e sangrenta dos acontecimentos explodem na tela com toda a crueza e violência, talvez até assustando os mais sensíveis e impressionáveis.
Não conhecia a banda de Black Metal formada em Oslo, na Noruega, nos anos 80, e nem aprecio esse estilo barulhento, rápido e repetitivo de música. Mas gostei demais do filme, por ser baseado em fatos reais, pelas ótimas atuações dos atores e pela verossimilhança das cenas violentas dos assassinatos. O filme conta a história de alguns jovens rapazes noruegueses ansiosos para se tornarem famosos astros do Rock, apostando na criação de uma banda e em jogadas de marketing extremas que, ao longo do tempo, saíram do controle e escalaram níveis inimagináveis, resultando em crimes pesados. Não darei mais pistas do que ocorre no filme, melhor assistirem ele no Prime Video, pois vale a pena. Só não o sugiro para quem tem dificuldades com violência extrema, pois existem três cenas bastante brutais, chocantes e perturbadoras. Fica o alerta.
ELENCO:
Rory Culkin - Øystein "Euronymous" Aarseth
Emory Cohen - Kristian "Varg" Vikernes
Jack Kilmer - Pelle "Dead" Ohlin
Sky Ferreira - Ann-Marit
Valter Skarsgård - Bård Guldvik "Faust" Eithun
Anthony De La Torre - Jan Axel "Hellhammer" Blomberg
Sam Coleman - Jon "Metalion" Kristiansen
Jonathan Barnwell - Jørn "Necrobutcher" Stubberud
Jon Øigarden - Magne Andreassen
Wilson Gonzalez Ochsenknecht - "Blackthorn"
Lucian Charles Collier - Stian "Occultus" Johannsen
Gustaf Hammarsten - Finn Tender
James Edwyn - Kjetil "Manheim"
Ele, o fanatismo, distorce a percepção da realidade e é presença constante na História do Mundo. E suas consequências são quase sempre, tenebrosas. O indivíduo tomado pelo fanatismo torna-se, mesmo aqueles com conhecimento elevado e inteligência superior, um cego radical, intolerante e paranoico, crente nas mais estranhas teorias da conspiração e obedientemente escravo dos seus líderes. A razão vai para o espaço e a obediência cega passa a ser o rumo. O ridículo dos atos é ignorado completamente. É aí que os ladinos, os velhacos, os trapaceiros fazem a festa, valendo-se dos tolos domesticados para atingirem seus objetivos mais mundanos: poder e dinheiro. Tomados por esta doença silenciosa e sorrateira, pessoas antes sensatas, críticas e clarividentes rechaçam o diálogo, refutam fatos, aprovam barbaridades e se solidarizam com canalhas criminosos, uma lástima. E mais hilário ainda, chutam carro, rezam para pneu, marcham em praça pública, abraçam cabine de caminhão em movimento, tentam contato com ETs com seus celulares, pedem o cerceamento da Liberdade, imploram por ditadura, queimam livros, atacam filmes, hostilizam pessoas, creem em fake News, cortam chinelos e bebem detergente. É o fundo do poço da ignorância e da perda da consciência. Não, não é ficção da Literatura! É uma patologia psíquica real, e triste, que aconteceu há pouco nas ruas diante dos nossos incrédulos olhos e parece querer se repetir mais uma vez.
O fanatismo foi cruel para os garotos da Noruega. Para os desvairados daqui, talvez morram sem compreender o mal que causaram aos outros nem a si mesmos. Por algum tempo, os fanáticos se sentem privilegiados e favorecidos, até que encontrem a luz e a salvação da verdade absoluta. Que assim seja um dia qualquer!
Um grande abraço espinosense.



