Espinosa, meu éden

Espinosa, meu éden

domingo, 6 de dezembro de 2020

2556 - Quincão, uma figuraça

Não sei se isso já aconteceu com vocês, mas às vezes, do nada, repentinamente me vem lembranças de uma pessoa em particular, mesmo que sem fato atual significativo ou sem alguma homenagem pela data de vida e morte referentes a ela. Simplesmente explode em nossa memória recordações de pessoas queridas que, não raro, já se foram deste cruel e injusto mundo. Pois hoje quem apareceu de repente em minhas recordações foi o meu saudoso amigo Quincão, personagem dinâmico, batalhador, polêmico na arbitragem e uma mistura explosiva de seriedade e galhofa.

Quincão, o primeiro à direita


Quincão foi um craque na profissão de motorista, guiando ônibus, caminhões e mais tarde, dirigindo sua Rural sempre impecavelmente asseada em prol do Banco do Brasil. Levou com presteza e segurança, por alguns anos, os funcionários da agência de Espinosa para o trabalho diário na cidade vizinha baiana de Sebastião Laranjeiras. E foi também o motorista em algumas das mais divertidas aventuras que eu tive o prazer de participar. Conto algumas delas a seguir.



Certa vez fomos participar dos jogos esportivos da FENABB, Federação Nacional das AABB, na fase microrregional em Janauba. A maioria de nós, jogadores, fomos na sua famosa Rural, sempre impecavelmente limpa. Nosso gigante goleiraço Zé Américo foi em seu Fiat 147, mas teve que o deixar para trás em Mato Verde, por conta de um problema mecânico, se juntando a nós na famosa Rural de Quincão, onde sempre cabia mais um. E lá fomos nós, em meio a muitos causos, gozações e gargalhadas. Até que em determinado momento, alguém percebeu que a música reproduzida no toca-fitas se repetia exaustivamente, já enchendo a paciência de alguns. No som ambiente, Reginaldo Rossi soltava sua voz característica interruptamente nos versos da canção "Deixa de Banca":  "Borogodá, borogodá, deixa de banca comigo, que você gosta só de mim". Aí começaram os protestos: - "Ô Quincão, o toca-fitas quebrou, tá repetindo a música direto!", - "Ô Quincão, troca essa música, pô, pelo amor de Deus!", - "Ô Quincão, ninguém aguenta mais esse borogodá aí não, sô!". Aí, com uma gargalhada daquelas, ele explicou o "problema". - "Não, gente, o toca-fitas não está com defeito não. É que eu gosto demais desta música e mandei o cara gravá-la dos dois lados da fita." É brincadeira um negócio desses?



Em outra ocasião, fomos jogar a fase estadual da FENABB em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro. Por conta da distância, tivemos que nos desdobrar na logística. Fomos de carro até Monte Azul, onde pegamos o velho e saudoso trem baiano até Montes Claros. Foi minha única viagem de trem até hoje, maravilhosa! Ficamos o tempo inteiro no vagão-restaurante, tomando cerveja, batendo papo e jogando baralho. Já em Montes Claros, pegamos uma velha Kombi alugada na Monvep e pegamos a longa estrada. A surrada Kombi começou a dar problemas mecânicos logo no início da viagem, nos forçando a parar umas duas vezes. Quincão é que fazia suas mágicas para a perua se restabelecer para seguirmos adiante. Quantos causos ouvimos de Quincão e quantas gargalhadas soltamos durante o longo trajeto! Faltando pouco menos de 10 km para chegarmos a Ituiutaba, Tiãozinho comentou que, depois de tanto problema, só faltava furar um pneu. Não deu outra! Poucos minutos se passaram e olha o pneu furado tornando-se real. Que boca maldita, sô! Trocado o pneu, finalmente chegamos na AABB de Ituiutaba. Caímos novamente na gargalhada ao ver as demais delegações de Juiz de Fora, Governador Valadares, Belo Horizonte, Uberaba e Uberlândia chegando todas uniformizadas e em ônibus confortáveis, com ar condicionado e tudo, enquanto nós pousávamos ali, todos bagunçados, em nossa velha e guerreira perua Kombi alugada a duras penas.



Na função de juiz, Quincão era bastante respeitado na cidade, sempre convidado para apitar os jogos mais importantes. Mas sua atuação era constantemente envolvida em polêmicas, principalmente quando ele apitava jogos do nosso Cruzeirinho. Em certo momento, fomos jogar em Monte Azul, contra o fortíssimo time de Vardim no campo do Odon Oliva. Perdemos a partida para o nosso maior adversário da época, com influência clara do juiz local em nosso desfavor. Na partida de volta, no Campão em Espinosa, Quincão foi convocado para apitar. Não demorou muito e ele logo marcou um pênalti a nosso favor, meio duvidoso, para não dizer inexistente ou "mandrake". O excelente treinador Vardim e seus jovens e talentosos comandados foram à loucura, todos indignados com a marcação da penalidade máxima. Com Quincão se mantendo firme na marcação do pênalti, Vardim decidiu tirar o seu time de campo e retornar para Monte Azul sem terminar a partida, para decepção nossa e dos torcedores que sempre iam ao campo para nos prestigiar. Nunca mais houve confronto entre o Cruzeirinho e o time de Vardim em Espinosa, pelo menos que eu saiba!



Muito tempo depois, o pessoal de Sebastião Laranjeiras, agradecido pelo relevante trabalho local da instituição financeira pública, convidou o pessoal do Banco do Brasil para um jogo de confraternização lá em sua cidade. E lá fomos nós. Fomos recepcionados com uma atenção e um carinho excepcionais. Durante o jogo, realizado sob o sol abrasador da manhã de domingo, alguns sebastianenses nos ofereciam cerveja gelada, na tentativa de nos agradar e refrescar e, claro, também de nos desviar do foco de ganhar o jogo. Quincão estava no apito e começou a marcar alguns lances de forma bastante estranha, invertendo faltas e marcando uns impedimentos inexistentes. E todas contra o nosso time. Nosso craque Racini, então menor aprendiz, fez os nossos dois gols, se não me falha a memória. E Quincão conseguiu a proeza de fazer o time adversário empatar o jogo, mesmo sendo muito pior que o nosso. Nem bem havia terminado o jogo e já reclamávamos pesado dele sobre sua péssima e tendenciosa atuação, ao que ele respondeu com uma boa gargalhada: "Uai, vocês são recebidos com festa, com todo carinho e atenção, ganhando cerveja e churrasco de graça e ainda querem ganhar o jogo do pessoal? Aí não, sô!" Assim era Quincão, uma figura extraordinária! Saudades, parceiro.
Um grande abraço espinosense.