Espinosa, meu éden

Espinosa, meu éden

domingo, 15 de fevereiro de 2026

3993 - Definidos os quatro semifinalistas do Campeonato Mineiro 2026

Depois de uma última rodada da fase primeira do Campeonato Mineiro repleta de emoções e muitas reclamações de um dos derrotados, eis que já sabemos quem estará seguindo adiante na busca da taça de Campeão do futebol do Estado de Minas Gerais em 2026. Para variar, os três gigantes de Belo Horizonte confirmaram suas presenças, com a companhia do interiorano time de Pouso Alegre, terra onde mora e trabalha meu filho Renato.
A oitava rodada do Mineiro trouxe todas as partidas para serem disputadas no mesmo dia e horário, sábado, 14 de fevereiro, às 19 horas. Dos doze times que disputavam a competição, nada menos que oito tinham chance de classificação às semifinais, o que encheu de emoção esta derradeira rodada da competição.
Na Chave A, o Hexacampeão Atlético, já sem o treinador Jorge Sampaoli no comando, conseguiu a vaga com a derrota da URT para o arquirrival Cruzeiro e com sua ampla goleada sobre o rebaixado Itabirito. Único invicto no torneio, o Galo ganhou apenas três partidas e colecionou empates, cinco no total. Mas uma das poucas vitórias foi crucial para a equipe alvinegra, o triunfo sobre o maior adversário, o Cruzeiro, pelo placar de 2 x 1. A partir deste resultado positivo, o time recuperou a confiança e confirmou a classificação ontem, tranquilamente, na goleada de 7 x 2 sobre o Itabirito.



Na Chave B, o mais equilibrado do torneio, o América validou a sua vaga nas semifinais vencendo o North no Independência por 2 x 1, com dois gols de penalidades máximas anotadas pelo árbitro juiz-forano Paulo César Zanovelli, o que causou enorme polêmica e uma grande revolta nos integrantes da equipe montes-clarense que discordaram das decisões em campo. Os northenses alegaram erro na marcação da penalidade e também na decisão do árbitro de mandar repetir a cobrança, pois alegou haver invasão da área. O pênalti até pode ser contestado pelo North, pois o zagueiro Bruno Bispo disputou a bola com o atacante americano Paulo Victor, restando alguma dúvida no lance. Foi um lance de interpretação e o árbitro decidiu por marcar a penalidade máxima. O North tem todo o direito de questionar tal marcação e se indignar com a decisão da arbitragem. Mas quanto ao fato de o árbitro ter determinado a repetição da cobrança, não há razão para contestação pois a regra é bem clara, atualizada há pouco tempo pela CBF após deliberação da International Football Association Board (IFAB), em julho de 2024. Assim ficaram as mudanças no que diz respeito à invasão da área no momento do pênalti:
"No ataque, nenhum companheiro do cobrador pode invadir a área para ter vantagem na disputa. Nesse caso, será marcado tiro livre indireto. Se a ação impactar o goleiro e o gol for marcado, a penalidade será repetida."
"Na defesa, o jogador não pode invadir a área antes da cobrança para ter qualquer vantagem na disputa da bola. Se isso acontecer, o pênalti será repetido."
Então o árbitro Paulo César Zanovelli acertou, exigindo nova cobrança pelo atacante Val Soares. O pessoal do North está esbravejando e se dizendo roubado, mas mesmo com todo barulho promovido, nada acontecerá e tudo continuará do jeito que está, com América, Atlético, Cruzeiro e Pouso Alegre jogando as partidas semifinais. O preparador físico Gabriel Souza Junior, o supervisor Odair Borges e o volante Guilherme foram citados na súmula do jogo e deverão ser punidos por ofensas ao árbitro.
Com a segunda melhor campanha entre os três grupos, o Pouso Alegre fez bonito e garantiu sua presença ao lado dos grandes de BH. Vai enfrentar o Cruzeiro, que certamente, pela superioridade em todos os sentidos, estará presente na grande final contra América ou Atlético. 



Na Chave C, o Cruzeiro confirmou sua vaga com a vitória sobre a URT pelo placar de 2 x 1, com dois gols do artilheiro Kaio Jorge que não para de marcar, em fase iluminada.
Terminada a fase de classificação, assim ficaram os confrontos das semifinais:
21-02-2026 - Sábado - 18h30 - Pouso Alegre x Cruzeiro
22-02-2026 - Domingo - 18h00 - Atlético x América
28-02-2026 - Sábado - 18h30 - Cruzeiro x Pouso Alegre
01-03-2026 - Domingo - 18h00 - América x Atlético
Por terem feito melhores campanhas, América e Cruzeiro decidirão em casa. Se houver empate no placar agregado nas semifinais, a vitória será decidida na cobrança de pênaltis, sem prorrogação. 



Na disputa do Troféu Inconfidência, entre os clubes que não se classificaram às semifinais e nem foram rebaixados, estarão:
Uberlândia x North (confrontos ainda sem datas definidas)
Tombense x URT
North x Uberlândia
URT x Tombense
Esta competição é bastante importante para os clubes do interior pois dá ao campeão uma vaga na Copa do Brasil.
Duas equipes foram rebaixadas e disputarão em 2027 o Módulo II. São elas o Athletic Clube e o Democrata de Governador Valadares.



Depois de um bom susto, Atlético e Cruzeiro conseguiram a classificação sem maiores problemas. O Cruzeiro promete acabar com a seca de seis anos sem título na competição estadual, enquanto o Atlético almeja um título inédito na era do profissionalismo em Minas, o Heptacampeonato.
A vitória atleticana de goleada pode significar um renascimento da equipe que vinha oscilando no início desta temporada sob o comando do Sampaoli. E o incrível Hulk brilhou mais uma vez, com seu primeiro hat-trick com o glorioso manto alvinegro. Victor Hugo, Gustavo Scarpa, Mateo Cassierra e Renan Lodi marcaram os demais gols. Mas uma goleada sobre um time frágil como o Itabirito não deve entusiasmar loucamente a torcida bipolar atleticana, que detona diretoria, treinador e jogadores quando perde e coloca-os como gênios quando ganha. Nem tanto ao céu nem tanto à terra, muita calma nesta hora. O Atlético ainda necessita de um zagueiro alto e rápido, bom na bola aérea, um volante de boa marcação e saída de bola, um armador de jogadas de grande talento construtor e um artilheiro que coloque a bola na rede adversária, pois sem gols não há vitórias. Espero que o elenco se fortaleça, que o time se torne coeso, eficiente e competitivo e que o novo treinador tenha sucesso e não seja esculhambado pelos corneteiros logo que houver um resultado negativo. Vamos aguardar os acontecimentos e torcer pelo título do Hepta e por uma boa campanha no Brasileirão e na Copa Sul-Americana. Aqui é GALO, uma vez até morrer!
Um grande abraço espinosense.

3992 - Acredite! O Brasil ganhou uma Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno

Pode soar estranho e até inacreditável que o Brasil tão quente e ensolarado tenha ganhado uma Medalha de Ouro nos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano, mas é verdadeira a façanha de um jovem filho de uma brasileira. Lucas Pinheiro Braathen, filho do norueguês Bjørn Braathen e da brasileira Alessandra Pinheiro de Castro, nasceu em Oslo há 25 anos. Sem perder o vínculo com o Brasil, o menino sempre vinha ao país tropical com a mãe, aprendendo o Português, conhecendo e se apaixonando pelo futebol e se tornando torcedor do São Paulo. Tornou-se atleta de esqui alpino na Noruega e conseguiu ótimos resultados na carreira, com várias medalhas conquistadas. 
A primeira Medalha de Ouro de um brasileiro e sul-americano na competição veio na prova de slalom gigante, onde os competidores realizam duas descidas em montanha com cerca de 300 a 450 metros de desnível, onde se exige velocidade e precisão para atingir a linha de chegada depois de se desviar de vários balizadores dispostos na pista gelada. Lucas fez bonito e conquistou o lugar mais alto do pódio. O feito do rapaz se deu no sábado, 14 de fevereiro de 2026, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina, na Itália.



Mas como esse jovem atleta nascido na Noruega veio parar no Brasil, defendendo as cores brasileiras nesta competição no gelo? Lucas competia pela Noruega, mas por divergências contratuais com a federação local, resolveu se transferir para o Brasil, em marco de 2024. E fez História!
Quem nunca participou de qualquer categoria esportiva jamais saberá o prazer e a alegria de conquistar um primeiro lugar. Não interessa, pode ser em competição de purrinha, ping pong ou cuspe à distância. Vencer é muito bom, uma sensação gostosa de superação dos adversários. Mas a conquista deve ser sempre pautada na ética, na justiça e na humildade, respeitando e valorizando os adversários.
Lucas namora a linda atriz paraibana de João Pessoa, a Isadora Cruz, e gosta bastante de música brasileira, especialmente Jorge Ben Jor e João Gilberto.



Parabéns ao norueguês abrasileirado Lucas pela brilhante e importante vitória, que colocou o Brasil no mapa mundial das competições de esqui. É muito bonito e gratificante ver a Bandeira de todos os brasileiros sendo erguida no pódio, assim como é emocionante ver o nosso Hino Nacional sendo tocado para todo o mundo escutar. Valeu, Campeão Lucas!
Um grande abraço espinosense.

3991 - O ouro de Taiguara

Há pouco estive ouvindo no YouTube o álbum "Imyra, Tayra, Ipy", uma obra-prima do grande compositor e cantor Taiguara, batizado como Taiguara Chalar da Silva. Ele nasceu em 9 de outubro de 1945 na capital uruguaia, Montevidéu, e morreu aos 50 anos em 14 de fevereiro de 1996 em São Paulo, capital. Tinha a música no sangue, já que era filho do bandoneonista e maestro Ubirajara Silva e da cantora de Tango Olga Chalar. Entre 1978 e 1985, foi casado com Eliane Potiguara, com quem gerou três filhos.
Radicado no Brasil, o músico começou sua trajetória em disco lançando em 1965 o álbum "Taiguara!", basicamente de Bossa Nova e Samba. Daí em diante vieram:
Crônica da Cidade Amada (1965)
Primeiro Tempo 5 X 0 (1966)
Taiguara (1968)
Hoje (1969)
Viagem (1970)
Carne e Osso (1971)
Piano e Viola (1972)
Fotografias (1973)
Let the Children Hear the Music (1974)
Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara (1976)
Canções de Amor e Liberdade (1983)
Brasil Afri (1994)



O artista sofreu na pele e no bolso a maldita repressão da ditadura que maltratou o Brasil por longos e pesados 21 anos. Foi ameaçado de morte e precisou deixar o país. Dezenas de composições suas foram censuradas e alguns dos seus álbuns já gravados foram proibidos e retirados sumariamente das lojas, ocasionando ao artista um prejuízo artístico, financeiro e psicológico sem dimensão, uma covardia e canalhice inaceitáveis. 
O tempo das trevas passou, a Democracia e a Liberdade venceram e o talento de Taiguara permanece brilhante e iluminado em suas obras, infelizmente, pouco divulgadas. Mas quem tem a sorte, o discernimento e a clarividência de apreciá-las, é só prazer desfrutar das suas belezas criadas e disponíveis na Internet.

Deixo para quem tem o dom da escrita falar sobre Taiguara, o jornalista Fagner Oliveira:
"Escrever sobre Taiguara é um prazer profundo e também uma responsabilidade.  Eu aprendi sua história desde muito novo, antes mesmo de entender o mundo que ele enfrentou. Minhas irmãs falavam de sua genialidade e de sua liberdade poética como quem descreve uma constelação impossível de ignorar, e eu cresci ouvindo seu nome com admiração, quase como se fosse um mito particular da nossa casa. Só mais tarde, já na juventude, fui capaz de decifrar sua poesia com a nitidez que a vida adulta traz. Foi nesse momento que Taiguara deixou de ser apenas uma memória afetiva e se tornou um norte, um farol aceso em meio às sombras que o tempo insiste em levantar.
Taiguara nasceu em trânsito. Antes mesmo de entender o próprio nome, já era um passageiro do vento, filho de um maestro e de uma cantora que cruzavam fronteiras com instrumentos na bagagem e inquietações na alma. Veio ao mundo em Montevidéu, em 9 de outubro de 1945, mas cresceu brasileiro por convicção afetiva, arrastado ainda pequeno para um país que aprenderia a chamar de lar. Porto Alegre primeiro, Rio e São Paulo depois. O menino que atravessava fronteiras sem sabê-lo cedo descobriria que viver seria, para ele, uma sucessão de chegadas e partidas.
Estudou Direito por formalidade, mas era evidente que sua lei verdadeira estava nas pautas musicais. Abandonou a faculdade e mergulhou numa vocação precoce, escrevendo canções com a desenvoltura de quem já nasceu íntimo das harmonias. O Brasil o ouviu pela primeira vez nos festivais dos anos 60, quando a juventude, ainda acreditando no próprio futuro, lotava teatros para ver surgir as novas vozes. E Taiguara não surgia, irrompia. Versátil, transitava entre bossa nova, MPB, samba e jazz com a mesma naturalidade com que mudara de país na infância. Era um artista que parecia ter vivido muitas vidas antes dos 20 anos.
Seu nome vinha de uma origem indígena e significava senhor de si. Ironia ou profecia, a ditadura tentaria provar o contrário. Taiguara tornou-se um dos artistas mais censurados do país, um alvo ambulante da paranoia militar. Chegou a ter cerca de cem músicas vetadas, onze delas proibidas em um único ano. Cada canção que escrevia parecia acender um pequeno incêndio na mesa dos censores. Não era panfleto, era poesia demais para um regime que não sabia lidar com metáforas.
O primeiro exílio começou como fuga e terminou como reinvenção. Na Inglaterra, estudou na Guildhall School of Music and Drama e ampliou seus horizontes, mas o eco do Brasil continuava reverberando dentro dele. Voltou em 1976 com a ousadia de quem acredita no inegociável e lançou Imyra, Tayra, Ipy, uma obra maior, um disco que unia mitologia indígena, crítica política e arrebatamento estético. Durou menos que um sopro. Em menos de 72 horas, o álbum foi apreendido, destruído, transformado em silêncio à força. Taiguara viu sua criação ser arrancada do mundo e escolheu partir de novo.
Vagou pela África e pela Europa como quem atravessa o próprio deserto íntimo. Colecionou exílios, coletou causas, aprofundou ideais. Voltou ao Brasil em 1980 com marcas que não apareciam nas fotografias. A ditadura estava no fim, mas as cicatrizes permaneceriam. Seus discos posteriores, como Canções de Amor e Liberdade e Brasil Afri, ainda carregavam o traço essencial de sua vida inteira. A música era trincheira, a palavra era território de resistência. Nesse período, trabalhou também como repórter, como se a urgência de registrar o mundo fosse inseparável da urgência de transformá-lo.
Em sua vida pessoal, viveu uma história tão intensa quanto suas letras. Casou-se com a escritora e ativista indígena Eliane Potiguara, com quem teve três filhos. Era uma união entre duas vozes que não se curvavam, duas consciências que entendiam que existir é um ato político. Separaram-se, mas o vínculo humano, ético e poético jamais deixou de fazer parte de quem ele foi.
Taiguara morreu cedo demais, em 14 de fevereiro de 1996, aos 50 anos, vítima de um câncer na bexiga. Mas a verdade é que sua vida inteira foi uma batalha contra diferentes formas de apagamento. O apagamento do exílio, da censura, da violência de Estado e da pressa do mundo. Nada disso venceu. Se tentaram calá-lo, falharam de forma espetacular.
Porque Taiguara sobrevive onde os regimes não alcançam. Na memória afetiva, no vinil ressuscitado, no arrepio de quem descobre hoje uma canção que quase não pôde existir ontem. Ele permanece como um desses artistas raros cujo legado não depende de fama, mas de ferida, de cicatriz, de coragem.
No fim, sua história parece pedir que não desviemos os olhos. Que entendamos que cada obra destruída é uma fogueira acesa contra nós mesmos. Taiguara vive como um lembrete áspero e luminoso de que a arte pode até ser calada, mas jamais desinventada. Ouvir sua música hoje é um pequeno ato de desobediência, um gesto de restituição. É como recolher, do chão da história, o que tentaram esmagar e segurá-lo firme, para que ninguém ouse esquecer outra vez."

Taiguara continuará vivo enquanto existirem pessoas sensatas, sensíveis, engajadas, sábias e sonhadoras que escutam com atenção e reverência suas lindas composições.
Um grande abraço espinosense.