Espinosa, meu éden

Espinosa, meu éden

domingo, 15 de fevereiro de 2026

3991 - O ouro de Taiguara

Há pouco estive ouvindo no YouTube o álbum "Imyra, Tayra, Ipy", uma obra-prima do grande compositor e cantor Taiguara, batizado como Taiguara Chalar da Silva. Ele nasceu em 9 de outubro de 1945 na capital uruguaia, Montevidéu, e morreu aos 50 anos em 14 de fevereiro de 1996 em São Paulo, capital. Tinha a música no sangue, já que era filho do bandoneonista e maestro Ubirajara Silva e da cantora de Tango Olga Chalar. Entre 1978 e 1985, foi casado com Eliane Potiguara, com quem gerou três filhos.
Radicado no Brasil, o músico começou sua trajetória em disco lançando em 1965 o álbum "Taiguara!", basicamente de Bossa Nova e Samba. Daí em diante vieram:
Crônica da Cidade Amada (1965)
Primeiro Tempo 5 X 0 (1966)
Taiguara (1968)
Hoje (1969)
Viagem (1970)
Carne e Osso (1971)
Piano e Viola (1972)
Fotografias (1973)
Let the Children Hear the Music (1974)
Imyra, Tayra, Ipy - Taiguara (1976)
Canções de Amor e Liberdade (1983)
Brasil Afri (1994)



O artista sofreu na pele e no bolso a maldita repressão da ditadura que maltratou o Brasil por longos e pesados 21 anos. Foi ameaçado de morte e precisou deixar o país. Dezenas de composições suas foram censuradas e alguns dos seus álbuns já gravados foram proibidos e retirados sumariamente das lojas, ocasionando ao artista um prejuízo artístico, financeiro e psicológico sem dimensão, uma covardia e canalhice inaceitáveis. 
O tempo das trevas passou, a Democracia e a Liberdade venceram e o talento de Taiguara permanece brilhante e iluminado em suas obras, infelizmente, pouco divulgadas. Mas quem tem a sorte, o discernimento e a clarividência de apreciá-las, é só prazer desfrutar das suas belezas criadas e disponíveis na Internet.

Deixo para quem tem o dom da escrita falar sobre Taiguara, o jornalista Fagner Oliveira:
"Escrever sobre Taiguara é um prazer profundo e também uma responsabilidade.  Eu aprendi sua história desde muito novo, antes mesmo de entender o mundo que ele enfrentou. Minhas irmãs falavam de sua genialidade e de sua liberdade poética como quem descreve uma constelação impossível de ignorar, e eu cresci ouvindo seu nome com admiração, quase como se fosse um mito particular da nossa casa. Só mais tarde, já na juventude, fui capaz de decifrar sua poesia com a nitidez que a vida adulta traz. Foi nesse momento que Taiguara deixou de ser apenas uma memória afetiva e se tornou um norte, um farol aceso em meio às sombras que o tempo insiste em levantar.
Taiguara nasceu em trânsito. Antes mesmo de entender o próprio nome, já era um passageiro do vento, filho de um maestro e de uma cantora que cruzavam fronteiras com instrumentos na bagagem e inquietações na alma. Veio ao mundo em Montevidéu, em 9 de outubro de 1945, mas cresceu brasileiro por convicção afetiva, arrastado ainda pequeno para um país que aprenderia a chamar de lar. Porto Alegre primeiro, Rio e São Paulo depois. O menino que atravessava fronteiras sem sabê-lo cedo descobriria que viver seria, para ele, uma sucessão de chegadas e partidas.
Estudou Direito por formalidade, mas era evidente que sua lei verdadeira estava nas pautas musicais. Abandonou a faculdade e mergulhou numa vocação precoce, escrevendo canções com a desenvoltura de quem já nasceu íntimo das harmonias. O Brasil o ouviu pela primeira vez nos festivais dos anos 60, quando a juventude, ainda acreditando no próprio futuro, lotava teatros para ver surgir as novas vozes. E Taiguara não surgia, irrompia. Versátil, transitava entre bossa nova, MPB, samba e jazz com a mesma naturalidade com que mudara de país na infância. Era um artista que parecia ter vivido muitas vidas antes dos 20 anos.
Seu nome vinha de uma origem indígena e significava senhor de si. Ironia ou profecia, a ditadura tentaria provar o contrário. Taiguara tornou-se um dos artistas mais censurados do país, um alvo ambulante da paranoia militar. Chegou a ter cerca de cem músicas vetadas, onze delas proibidas em um único ano. Cada canção que escrevia parecia acender um pequeno incêndio na mesa dos censores. Não era panfleto, era poesia demais para um regime que não sabia lidar com metáforas.
O primeiro exílio começou como fuga e terminou como reinvenção. Na Inglaterra, estudou na Guildhall School of Music and Drama e ampliou seus horizontes, mas o eco do Brasil continuava reverberando dentro dele. Voltou em 1976 com a ousadia de quem acredita no inegociável e lançou Imyra, Tayra, Ipy, uma obra maior, um disco que unia mitologia indígena, crítica política e arrebatamento estético. Durou menos que um sopro. Em menos de 72 horas, o álbum foi apreendido, destruído, transformado em silêncio à força. Taiguara viu sua criação ser arrancada do mundo e escolheu partir de novo.
Vagou pela África e pela Europa como quem atravessa o próprio deserto íntimo. Colecionou exílios, coletou causas, aprofundou ideais. Voltou ao Brasil em 1980 com marcas que não apareciam nas fotografias. A ditadura estava no fim, mas as cicatrizes permaneceriam. Seus discos posteriores, como Canções de Amor e Liberdade e Brasil Afri, ainda carregavam o traço essencial de sua vida inteira. A música era trincheira, a palavra era território de resistência. Nesse período, trabalhou também como repórter, como se a urgência de registrar o mundo fosse inseparável da urgência de transformá-lo.
Em sua vida pessoal, viveu uma história tão intensa quanto suas letras. Casou-se com a escritora e ativista indígena Eliane Potiguara, com quem teve três filhos. Era uma união entre duas vozes que não se curvavam, duas consciências que entendiam que existir é um ato político. Separaram-se, mas o vínculo humano, ético e poético jamais deixou de fazer parte de quem ele foi.
Taiguara morreu cedo demais, em 14 de fevereiro de 1996, aos 50 anos, vítima de um câncer na bexiga. Mas a verdade é que sua vida inteira foi uma batalha contra diferentes formas de apagamento. O apagamento do exílio, da censura, da violência de Estado e da pressa do mundo. Nada disso venceu. Se tentaram calá-lo, falharam de forma espetacular.
Porque Taiguara sobrevive onde os regimes não alcançam. Na memória afetiva, no vinil ressuscitado, no arrepio de quem descobre hoje uma canção que quase não pôde existir ontem. Ele permanece como um desses artistas raros cujo legado não depende de fama, mas de ferida, de cicatriz, de coragem.
No fim, sua história parece pedir que não desviemos os olhos. Que entendamos que cada obra destruída é uma fogueira acesa contra nós mesmos. Taiguara vive como um lembrete áspero e luminoso de que a arte pode até ser calada, mas jamais desinventada. Ouvir sua música hoje é um pequeno ato de desobediência, um gesto de restituição. É como recolher, do chão da história, o que tentaram esmagar e segurá-lo firme, para que ninguém ouse esquecer outra vez."

Taiguara continuará vivo enquanto existirem pessoas sensatas, sensíveis, engajadas, sábias e sonhadoras que escutam com atenção e reverência suas lindas composições.
Um grande abraço espinosense.


Nenhum comentário: