Aproveitei a quinta-feira de Corpus Christi para assistir completamente à série "Brasil 70: A Saga do Tri", disponível na Netflix. São cinco episódios com duração entre 53 e 1h15 minutos que mostram quase tudo, desde a preparação dos jogadores até a grande conquista sobre a Itália em jogo inesquecível com vitória arrasadora por 4 x 1 no Estádio Azteca da cidade do México.
BRASIL 70: A SAGA DO TRI
Episódio 1 - "Pelé, Jogai Por Nós" - 53:44
Episódio 2 - "Os 11 de Zagallo" - 1:05
Episódio 3 - "Que Rei Sou Eu?" - 1:03
Episódio 4 - "O Fantasma do Maracanazo" - 1:15
Episódio 5 - "Eu Não Morri" - 1:09
A série vai muito além do assunto futebol. Ela mostra os bastidores da gigante conquista do escrete canarinho em terras mexicanas, mas também o cenário político, cultural e social da época. O Brasil sofria a repressão cruel e violenta de uma maldita ditadura militar, enquanto o Homem pisava pela primeira vez na Lua com a nave Apolo 11 da NASA. No dia 20 de julho de 1969, com transmissão pela TV, os astronautas norte-americanos Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins pisaram na superfície lunar, realizando um feito histórico na exploração espacial. Mas até hoje há quem não creia na veracidade destes dois fatos. A melhor banda de Rock do planeta, The Beatles, havia acabado, deixando órfãos milhões de fãs pelo mundo inteiro. E a Guerra Fria assustava o mundo, mas a luta pela paz se mostrava firme e ativa, como se viu no Festival de Woodstock.
A série, muito bem construída com atores reais e uma boa ajuda da IA-Inteligência Artificial, retrata momentos icônicos da trajetória brasileira nos gramados na Copa de 1970. Estão lá na tela o chutaço de Pelé do meio de campo contra a Tchecoslováquia, que infelizmente foi para fora, e o drible fantástico no goleiro uruguaio que posteriormente jogou no Atlético, Ladislao Mazurkiewicz Iglesias. Estão lá a bobeada de Clodoaldo no gol de empate na final e o golaço de Pelé de cabeça contra a Itália. Estão lá os gols decisivos do "Furacão" Jairzinho, a genialidade do mineirinho Tostão e os passes precisos e fundamentais de Pelé como no último gol da final, para o "Capitão" Carlos Alberto Torres estufar as redes de Enrico Albertosi no gramado do Estádio Azteca. Aos espinosenses, uma curiosidade. Na época, ao ter um filho, o Tidim, morador da Rua Padre Guilhermino e um dos proprietários do Cine Coronel Tolentino, batizou-o com o nome do goleiro italiano, Albertosi. Infelizmente, o Albertosi já nos deixou, precocemente. O nome da nossa Espinosa também aparece na série, no sobrenome de uma integrante do elenco, a atriz Fania Espinosa, que interpreta a religiosa mãe do Rei Pelé, Dona Celeste.
É claro que a série se dedica a mostrar a caminhada brasileira até a conquista da taça de Campeão Mundial de Seleções da FIFA, com cenas dos bastidores da competição no hotel da cidade de Guadalajara, dos treinamentos e das partidas, mas há também um pouquinho do cenário conturbado da política na América Latina, com o Brasil em evidência. Os ditadores do regime militar pressionavam o astro Pelé para declarar apoio ao regime ditatorial que sofria descrédito com as denúncias de assassinatos e torturas e o sequestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben. Pelé se angustiava com a pressão extracampo e a cobrança de posicionamento feita pelos ditadores no poder e por alguns colegas clarividentes, como Paulo César Caju e Tostão, na direção contrária.
A série, lançada em 29 de maio de 2026, é uma produção brasileira da Netflix em parceria com a O2 Filmes, criada por Naná Xavier e Rafael Dornellas, com direção de Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles. Ela retrata a conquista do primeiro Tricampeonato da História das Copas, utilizando-se de fatos verdadeiros, com uma pequena dose de dramatização, especialmente nos conflitos internos e nos dilemas pessoais descobertos em entrevistas dos integrantes da delegação durante a jornada no México.
No elenco, figuras bastante conhecidas do público que aprecia cinema e TV: Rodrigo Santoro (excelente como Saldanha), Bruno Mazzeo (como Zagallo) e Marcelo Adnet (como o narrador Eusébio Teixeira). Os torcedores atleticanos mais atentos irão reconhecer o ex-atleta do clube no papel do craque Gérson, Fillipe Soutto.
ELENCO:
Pelé – Lucas Agrícola
Pelé criança - Kamal Costa
João Saldanha – Rodrigo Santoro
Zagallo – Bruno Mazzeo
Jairzinho – Gui Ferraz
Tostão – Ravel Andrade
Paulo Cézar Caju - Maicon Rodrigues
Carlos Alberto Torres – Caio Cabral
Rivellino – Daniel Blanco
Gérson – Fillipe Soutto
Félix – Hugo Haddad
Eusébio Teixeira – Marcelo Adnet
Mário Américo - Val Perré
Carlos Alberto Parreira - José Beltrão
João Havelange - Nelson Baskerville
Doutor Lídio Toledo - Alexandre Krug
Brigadeiro Braga - Vanderlei Bernardino
Leão - João Vithor Oliveira
Fontana - Lucas Sá
Brito - Luan Henrique
Clodoaldo - Leo Corleone
Piazza - Gabriel Santos Silva
Roberto Miranda - Bruno Aredes
Marco Antônio - Kayo de Oliveira
Dadá Maravilha - Victor Salomão
Edu - Blad
Ado - Giovanni Venoso
Baldocchi - Rafael Rampazzo
Everaldo - Mateus Augusto
Joel Camargo - MV
Zé Maria - Wesley Martins
Dondinho - Rogério Brito
Celeste - Fania Espinosa
Kelly - Maitê Mendes
Thereza Bulhões - Júlia Stockler
Rosa - Lara Tremouroux
Léo - Felipe Frazão
Mazzetti - Caio Horowicz
Rosemeri - Bruna Mascarenhas
A saga brasileira no México foi épica. Foram seis jogos e seis vitórias, com 19 gols marcados (7 de Jairzinho, 4 de Pelé, 3 de Rivellino, 2 de Tostão, 1 de Clodoaldo, 1 de Gérson e 1 de Carlos Alberto). Vencemos Tchecoslováquia (4 x 1), Inglaterra (1 x 0), Romênia (3 x 2), Peru (4 x 2), Uruguai (3 x 1) e Itália (4 x 1). O "Furacão" Jairzinho marcou gol em todas as seis partidas. E, claro, Pelé deixou sua marca, com quatro gols e seis assistências. Mas muita gente ajudou a balançar as redes adversárias: Rivellino, Gérson, Tostão, Clodoaldo e até o "Capitão" Carlos Alberto.
O timaço de "feras" idealizado pelo firme e corajoso João "Sem Medo" Saldanha acabou caindo na mão do Mário Jorge Lobo Zagallo, que teve a competência de manter nada menos que cinco excelentes camisas 10 na equipe titular, o que foi fundamental para a conquista: Pelé, Tostão, Gérson, Rivellino e Jairzinho.
Ao assistir à série, me emocionei bastante, pois à época da Copa de 1970 eu era uma criança de 7 anos e não tive a chance de assistir aos jogos. Em Espinosa havia pouquíssimos aparelhos de televisão, ainda em preto e branco, privilégio de ricos. Agora, 56 anos depois, assistindo aos detalhes da vitoriosa trajetória brasileira, percebo muita coisa importante que muita gente desconhece ou refuta saber. O João Saldanha foi substituído pelo Zagallo por não se dobrar aos desejos dos tiranos de então, reafirmando seus ideais políticos e de justiça, reforçando minha admiração por sua pessoa. Gosto de gente assim, que não se cala nem se ajoelha aos poderosos. Descobri também que até o Rei Pelé, amado e endeusado pelos amantes do futebol do mundo inteiro, tinha seus momentos de fraqueza. Por muitas vezes, percebe-se que ele questionava a si mesmo se teria condições físicas e capacidade psicológica para enfrentar os difíceis desafios de uma campanha na Copa do Mundo. O Rei era divino, mas era apenas um ser humano comum como todos. E sofria influência positiva de companheiros com mais discernimento, como o craque Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão.
Alguns fatos me chamaram bastante a atenção. Naquele tempo, eram raras as substituições. Os titulares só saíam de campo se sofressem lesões. E foi ali, na Copa do México, que foi instituída a regra dos cartões amarelo e vermelho. E é muito interessante ver atletas profissionais como o craque Gérson fumando um cigarro antes de entrar em campo, coisa inimaginável nos dias atuais. Outra coisa a ser reparada é que nem tudo ocorreu de forma positiva nos jogos, pois houveram falhas dentro de campo, o que é natural. Mas se fosse hoje, com os corneteiros bradando forte nas críticas e "cancelamentos" nas redes sociais, o que seriam do goleiro Félix, já à época chamado de frangueiro; do Clodoaldo, que perdeu uma bola fácil que resultou no gol de empate da Itália marcado por Roberto Boninsegna; e do Pelé, que errou dois gols em jogadas magníficas contra a Tchecoslováquia e o Uruguai? Tivesse o Brasil perdido o caneco da Jules Rimet, esses jogadores seriam certamente violentamente massacrados pelos cornetas, assim como o fizeram com o goleiro Moacir Barbosa do Nascimento no Maracanazo de 1950. Se naquele tempo, destruíram covarde e impiedosamente a carreira e a vida do Barbosa, imaginem se fosse hoje?
Assim é a vida, assim é o esporte. Infelizmente. Se esta nossa atual Seleção Brasileira, de Vinícius Júnior, Alisson e Lucas Paquetá, for bem-sucedida e conquistar o tão sonhado Hexacampeonato, todos os jogadores e integrantes da Comissão Técnica serão aplaudidos, bajulados e santificados. Porém, se perderem o título, mesmo que na grande final para um adversário melhor, como a França, por exemplo, certamente veremos um linchamento geral nas redes sociais e nas páginas e mesas de debates da imprensa, com muita gente despreparada e ignorante chutando cachorro morto. Assim é e assim será sempre. Quem ganha é tratado como infalível, quem perde não tem qualquer valor, é imprestável. É a realidade.
O fato é que temos uma boa seleção de futebol, com muitos bons jogadores, mas sem os craques como tínhamos antigamente. O nosso último e genial craque, o Neymar, está em final de carreira, com muitos problemas físicos e um declínio muito grande na performance. Não somos mais os favoritos, temos adversários com equipes muito mais capacitadas que a nossa. Mas é copa, com jogos eliminatórios em que tudo pode acontecer, para o bem e para o mal. Podemos ser campeões sem ganhar nenhuma partida dos mata-matas, vencendo nos pênaltis. Pode acontecer? Pode. Tudo pode acontecer em uma Copa do Mundo, até a lógica, com uma França ou Espanha levantando a taça por possuírem, atualmente, os melhores selecionados do planeta. Então eu vou vestir minha camisa amarela da corrupta CBF e vou torcer muito para que Alisson feche o gol, que Marquinhos e Gabriel Magalhães não deixem os atacantes rivais marcarem gols, que o Casemiro e o Bruno Guimarães defendam e ataquem com eficiência e que Vini Jr., Raphinha, Endrick, Luiz Henrique, Igor Thiago e Matheus Cunha acertem o pé para colocarem a bola dentro dos gols adversários. E que venha o Hexa! Se não vier, paciência, outras copas virão adiante. E que, de uma vez por todas, consigamos compreender que o futebol é apenas um jogo, em que dois competidores entram em campo para a disputa suada dentro das regras e apenas um sai vencedor. Que o vitorioso seja o nosso amado Brasil!
Um grande abraço espinosense.
OS TRICAMPEÕES MUNDIAS DE 1970:
GOLEIROS:
Félix (Fluminense)
Ado (Corinthians)
Leão (Palmeiras)
ZAGUEIROS:
Brito (Flamengo)
Baldocchi (Palmeiras)
Fontana (Cruzeiro)
Joel (Flamengo)
LATERAIS:
Carlos Alberto Torres (Santos)
Marco Antônio (Fluminense)
Everaldo (Grêmio)
Zé Maria (Portuguesa)
MEIO-CAMPISTAS:
Clodoaldo (Santos)
Gérson (São Paulo)
Rivellino (Corinthians)
Piazza (Cruzeiro)
Paulo Cézar (Botafogo)
ATACANTES:
Jairzinho (Botafogo)
Tostão (Cruzeiro)
Pelé (Santos)
Edu (Santos)
Dario (Atlético)
Roberto Miranda (Botafogo)
CAMPANHA DO BRASIL NA COPA DE 1970:
FASE DE GRUPOS:
GRUPO 3: TCHECOSLOVÁQUIA, INGLATERRA E ROMÊNIA
03-06-1970 - Brasil 4 x 1 Tchecoslováquia - gols de Jairzinho (2), Pelé e Rivellino
07-06-1970 - Brasil 1 x 0 Inglaterra - gol de Jairzinho
10-06-1970 - Brasil 3 x 2 Romênia - gols de Pelé (2) e Jairzinho
QUARTAS DE FINAL:
14-06-1970 - Brasil 4 x 2 Peru - Tostão (2), Jairzinho e Rivellino
SEMIFINAL:
17-06-1970 - Brasil 3 x 1 Uruguai - gols de Clodoaldo, Jairzinho e Rivellino
FINAL:
21-06-1970 - Brasil 4 x 1 Itália - gols de Pelé, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto
| Seleção Brasileira de 1970: Carlos Alberto, Brito, Piazza, Félix, Clodoaldo, Everaldo e Dr. Lídio; Jairzinho, Rivellino, Tostão, Pelé e Paulo Cézar (substituto de Gérson contra Inglaterra e Romênia) |
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